Consumidores são pessoas

Em 2008 eu estava trabalhando em uma indústria multinacional suíça do ramo alimentício, e a empresa havia desenvolvido uma área chamada BOP (Base da Pirâmide).
Esta área tinha como missão e objetivo atender as necessidades dos consumidores da classe c, d e.
Eu trabalhava no marketing de uma linha infantil de produtos e então o BOP organizou um passeio pelas camadas de baixa renda para mostrar a realidade aos marketeiros e também despertar insights ao grupo.
Começamos andando de metrô visitando o centro de São Paulo e terminamos na Favela de Heliópolis.
O que me causou mais espanto foi a reação do grupo de marketeiros espantados em verem o cotidiano do trabalhador brasileiro e, além disso, em não conhecerem os principais pontos que compõem a cidade de São Paulo, inclusive a vida nas favelas.
Estes, chamados de Brasileiros no calor encostados uns nos outros dentro das minhocas de metais que entortam as ruas com suas mochilas amassadas e suas quentinhas abafadas. Quase um curral.
Trabalhadores que ralam todos os dias para estarem nas empresas, nos órgãos públicos, nas escolas, nos restaurantes, nos condomínios, nos shoppings..E muitas vezes não são vistos como seres que sentem, choram, pensam, sofrem, riem, têem medo, cansam ou SONHAM.
Gyleno dos Santos, 73 anos, morador no complexo do alemão/RJ, garçom e funcionário da Prefeitura desde 1982 levou o Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame nesta quarta-feira às lágrimas após tê-lo abraçado e agradecido pela ação no complexo do alemão.
Como ele sai todos os dias às 05h40 de casa para trabalhar, disse que vivia inseguro e com medo da violência e dos traficantes, e esse medo durava já 23 anos.

O mesmo sentimento de Beltrame foi a dos marketeiros. Como podem existir pessoas que vivem este tipo de vida e ainda estão com sorrisos nos rostos e nos seus olhos chamas de esperança? Até quando iremos assistir os sofrimentos dos oprimidos?

Certa vez participando de um Sarau Social na FIESP escutei a seguinte frase dita por um rapaz que escutou de um menino de 14 anos morador de uma favela: – “A caneta na mão de um político é mais perigosa que uma arma nas mãos de um jovem favelado”.

Diferente desta cobrança apenas do Estado, o que eu vi nos olhos daqueles marketeiros foi a reflexão em silêncio do ser humano e não do consumidor. Foram ali ter ideias para aumentar ou disponibilizar o consumo de produtos da empresa aos baixa renda, mas que antes de aumentarem o consumo, estes precisavam e tinham o direito de terem dignidade, e isso eles não podiam fazer ali naquele momento.

Creio que chegou a hora de substituirmos a palavra “consumidores” por “pessoas”. E também ratifico que a nova identidade empresarial ou a empresa modelo deste século, é a que ajude a transformar as realidades sociais e ambientais e conduza os homens a liberdade.

Maurílio Santos Jr

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