Me escuta. Sou um ser humano.

Esta semana escutei um desabafo de uma amiga que me comoveu.
- “Eu gostaria de mudar de vida! Mas não consigo. Gostaria de fazer algum curso, mas em que hora? O trabalho só me consome! Estaria mais feliz em outra área ou talvez em outro lugar.”

Estas palavras com gosto de fel representam o ser humano.
Antes de ser um profissional, poliglota, gestor(a) ou doutor(a) somos seres humanos que choram, sentem, sofrem, sonham, riem e que amam.

Segundo a tese de Marx, a maior deficiência do capitalismo é enxergar o ser humano como uma mercadoria. Você contrata, faz produzir e se não servir troca.

Há algum tempo venho batendo na tecla, Consumidores Não. Pessoas!
Esta reflexão serve também para “Funcionários Não, Pessoas”. Quantas vezes conversamos ou escutamos de um colega de trabalho se está feliz? Como vai sua família? Seus sonhos? Suas limitações? Sua saúde? Seu TEMPO livre? Sua paz de espírito?

Mas além de escutar, estender as mãos a ela?
Às vezes na vida ficamos fracos, cansados e desanimados porque percebemos que não estamos vivendo em novidade de vida ou simplesmente reconhecemos que não era esse o caminho que queríamos trilhar. Diante disso precisamos de apenas uma palavra, escutar uma palavra que penetre na nossa alma e oxigene nosso ânimo, olhar e aspirações. Capaz de nos tornar pessoas melhores e olhar por dias melhores.

Fiquei comovido porque um dia já estive também como ela. Me sentia um pássaro na gaiola e li um pensamento de Rubem Alves. Canários são lindos e cantam muito bem, mas só em gaiolas. Pardais não cantam tão bem e nem são tão bonitos, mas voam. Mas escutei de uma pessoa um texto que mudou minha vida. Possa ser que alguém lendo este texto agora esteja precisando também de uma palavra, uma sacudida, uma ponta de esperança ou uma injeção de mudança. Assim quero compartilhar este texto, escrito por uma escritora gaúcha chamada Martha Medeiros com vocês.

“Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.
Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado.
Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.
Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e
traiçoeira, pois, quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante.
Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.”

Maurílio Santos Jr

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