A falência dos líderes.

Parece papo de anarquista mas não é verdade. O conceito e a figura do “líder” está falindo no mundo dos negócios e demais estruturas sociais por uma nova evolução do homo sapiens na era psíquica pós-moderna.
Este artigo é uma reflexão com base em recentes escritos de Humberto Maturana, Ximena Dávila, Ignácio Muñoz & Patrício Garcia da Escola Matríztica sobre sustentabilidade.

O que mais observamos são as Escolas de Negócios, Universidades, Partidos políticos, Organizações religiosas, Cursos de Coaching, Literaturas de auto-ajuda preparando e despertando lideranças. Dizem que formam novos líderes para no futuro COMANDAREM empresas, negócios e os países, ou seja, pessoas capazes de encontrar a luz na escuridão e guiar a multidão.
A definição de líder pelo Wikipédia (“Enciclopédia Colaborativa”) diz: É a CONDUÇÃO de um grupo de pessoas, transformando-o numa equipe que gera resultados é chamado de liderança. É a habilidade de motivar e INFLUENCIAR os liderados, de forma ética e positiva, para que contribuam voluntariamente e com entusiasmo para alcançarem os objetivos da equipe e da organização.

Parece bonito e nobre as definições dos livros de auto-ajuda: “Líder é aquele que serve”; “Líder motiva”; “O monge e o executivo”; etc…. Mas no final das contas isso aqui significa COMANDO, CONTROLE e SUPERVISÃO; OBEDIÊNCIA SERVIL; STATUS e PODER.

Por que por exemplo o Presidente Lula não quer deixar de ser líder?
Seu Chefe ou político?
Vocação pelo bem comum ou status e poder?

Não precisamos de líder, precisamos de uma nova CONSCIÊNCIA.

Uma pesquisadora estava em uma tribo na África do Sul quando se deparou com muitas crianças. Então tomou uma certa distância delas e disse a elas: – Quem correr e chegar primeiro aqui ganhará este saco de guloseimas, ok?
Neste momento todas as crianças deram as mãos entrelaçando-as e correram juntas até a pesquisadora. Pegaram o saco e dividiram entre elas. Espantada, a pesquisadora perguntou ao chefe da tribo: – Mas como isso? Ele respondeu: – Ubuntú! Eu sou porque tu és!

Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível para outros, apoia os outros, não se sente ameaçada quando outros são capazes e bons, baseada em uma autoconfiança que vem do conhecimento que ele ou ela pertence a algo maior e é diminuída quando os outros são humilhados ou diminuídos, quando os outros são torturados ou oprimidos Arcebispo Demond Tutu.

Não temos tanta culpa nisso, mas nos ensinaram durante a vida que sem um guru, um líder, um chefe, um estadista estaríamos perdidos e condenados na Terra. Os primeiros comandos e controles surgiram com as entidades religiosas. Deveria ser ao contrário não é? Libertar pessoas e não aprisioná-las!

A figura acima mostra o jeito tradicional e tecnicista de pensar e agir vs o diálogo colaborativo e a operação da co-criação.

Vamos visualizar a liderança nas organizações.
Todo líder tem um objetivo individual e coletivo, uma certeza, visão e um planejamento. Para que o planejado aconteça, requer que as pessoas participantes realizem e não cometam erros, não mudem de opinião, não tenham iniciativas, ou seja, requer que sejam conduzidas como robôs.
A automação ou robotização do mundo é um reflexo desse planejamento.

Nós seres humanos não podemos ser vistos e não somos robôs. Queremos pensar, queremos reflexionar, queremos mudar de opinião, queremos ter iniciativa, queremos participar do que fazemos. Queremos ser vistos e escutados como seres inteligentes e criativos.
De fato no âmbito profissional quando queremos assegurar que o resultado esperado aconteça projetamos nos nossos “colaboradores” e empregados com prêmios, castigos e argumentos racionais de modo que se comportem conforme nossas especificações.
Enfim, queremos que eles se comportem como robôs multidimensionais nos quais podemos confiar.

Reconheçamos ou não, este é o papel da liderança.
A efetividade de uma liderança sempre dura pouco porque as pessoas querem ser participes criativos, e se não forem logo se cansam. aborrecem-se e querem outra coisa.

A liderança requer que os liderados abandonem a própria autonomia reflexiva e se deixem guiar por outro, confiando ou se submetendo as suas diretrizes e desejos, seja por se sentirem inspirados.
Assim a liderança deixa se der efetiva porque as pessoas querem ser responsáveis pelo que fazem.
Essa é a falência da liderança no nascimento da colaboração na coinspiração.

A colaboração ocorre quando o que se faz com outros se faz com prazer de fazê-lo, e se vive, portanto, a partir da autonomia reflexiva e da liberdade de ação. O ato de se inspirar com os outros cria um espaço psíquico de respeito, confiança, que nos dá segurança e expande nosso fazer inteligente e criativo. Essa coinspiração ocorre quando o prazer da colaboração se concebe e gera um projeto que surge em comum porque todos os que participam dele atuam vivendo o âmbito de coerências operacionais de sua realização como um espaço de ação e reflexão que lhes entrega respeito, autonomia, responsabilidade e liberdade reflexiva, qualquer que seja sua atividade.

Enfim colaboração e a coinspiração não são possíveis na liderança (qualquer que seja sua denominação) porque o espaço psíquico desta implica sempre a negação de si mesma na perda da autonomia reflexiva e de ação. A liderança qualquer que seja seu começo, ocorre na coordenação da obediência e da sujeição; daí a transitoriedade para a efetividade. Ao restringir a autonomia de reflexão e de ação no espaço psíquico que surge com a liderança. restringem-se a criatividade e os desejos de participar, pois restringe a inspiração.

Não existe departamentos, ma sim espaços de convivência.
A gerência coinspirativa funda-se no mútuo respeito e na consciência de que as pessoas, por meio do respeito por si mesmas, querem fazer responsável e seriamente o que sabem fazer, e querem aprender também responsavelmente e seriamente o que não sabem fazer porque, pelo respeito a si mesmas, querem cumprir seus compromissos. Todos nós preferimos colaborar a obedecer; todos nós preferimos ter presença no que fazemos a ser meros peões profissionais; todos nós preferimos ser autônomos e reflexivos em nosso fazer por meio do entendimento de sua natureza e seu significado, e assim ser pessoas participantes de um projeto comum, a ser subordinados robóticos.

Assim o fim da liderança ocorre na “Alma” dos liderados.
Com o fim da liderança e o começo da gerência coinspirativa, recupera-se a seriedade no fazer pela consciência de que sabe que se sabe o que se sabe e na tranquilidade de que um conviver mútuo respeito permite dizer “não sei” sem medo de um castigo, porque se sabe que o que não se sabe pode ser aprendido e se quer aprender.
Isto é, assim vivemos num espaço emocional de harmonia psíquica e corporal que chamamos de bem-estar.
E isso não é trivial, pois as emoções como domínios relacionais são o fundamento de todo o nosso fazer.

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