Empreendedorismo de Vanguarda – Um projeto para o Brasil

Mangabeira Unger

Na última sexta-feira (13/11/2015) tive a oportunidade de participar da Reunião do Conselho Superior de Inovação & Competitividade da FIESP com o Ex-Ministro e Profº de Harvard Roberto Mangabeira Unger. Em 9 anos de FIESP posso dizer que tive uma aula com um gênio brasileiro, que por sinal, foi o Profº do atual Presidente dos EUA Barack Obama nos anos 90.
Enquanto fora Ministro da SAE – Secretaria da Assuntos Estratégicos da Presidência da República, coordenou com sua pequena equipe um Estudo chamado “Empreendedorismo de Vanguarda”, afim de, propor um caminho estratégico de futuro ao Brasil.

Contexto Econômico
Nos últimos 12 anos de governo PT a estratégia econômica adotada foi:
a) Exportação de commodities
b) O acesso da população ao consumo (Democratização da Demanda)

O modelo foi exaurido pela queda da exportação no mundo de commodities e a falta de liquidez interna e externa.
O Brasil não estava preparado para tal acesso, tanto que, o consumo se concentrou nos itens supérfluos e a qualidade da sociedade não se elevou e desenvolveu. Criou-se uma nova classe média vazia, despreparada e que hoje com a atual crise, volta-se ao seu estágio inicial.

“Estamos esperando a crise passar para voltarmos a crescer de modo NORMAL, exportação de commodities e consumo. Está errado! Precisa ter coragem para impulsionar um vanguardismo. Uma nova economia de mercado de terceira via.”

O caminho para o Brasil agora é democratizar a Oferta. É na oferta que irá impulsionar e provocar inovações, exigir novos conhecimentos, aumentar os empregos e consequentemente melhorar a nossa qualidade interna.

O estudo foi dividido em 4 eixos estratégicos:

1) Educação

a) Substituir o atual modelo educacional- Nosso sistema educacional é o famoso “decoreba”, ou seja, eu preciso decorar para entrar em um ENEM, Universidade e sair dela com o TCC. Somos doutrinados a reprodução e não a construção de ideias e novos pensamentos. Ora, se somos estimulados a reproduzir o passado, como iremos pensar e raciocinar o futuro para nós enquanto projeto de vida e na nossa carreira profissional? A educação de base é péssima e o acesso ao subsídio universitário colocou no mercado bacharéis que não são capazes de interpretar uma redação e fazer as operações matemáticas.
a) Substituir o atual modelo educacional técnico- Nossas escolas técnicas ainda estão moldadas para o modelo alemão, onde se forma mão de obra para máquinas dos anos 60 (Fordismo). Um ensino sem oferecer a modernidade, a exigência da indústria 4.0 como podemos formar mão-de-obra para a vanguarda?
a) Federalismo cooperativo da educação- Se não federalizar a educação, ou seja, criar uma estratégia educacional nacional, de modo que, em cooperação com os Estados e Municípios se consiga aplicar de acordo com cada realidade regional, não teremos um nível mensurável de qualidade educacional.

2) Gestão Pública

a) Sistema de controle- O Estado não tem um sistema de controle que possa entender e controlar as receitas e despesas. Por exemplo: Programas Sociais, o Bolsa Família.
O governo se orgulha de a cada ano incluir mais pessoas no Programa Social, ou seja, quanto mais eu incluo, mais miseráveis o país detém.
Quando o correto era se orgulhar de diminuir as despesas com os programas, que significa, que o país esta saindo da zona da miséria. Então não se tem o controle de efetuar o investimento e retirá-lo dentro de um prazo. Não se tem a estratégia clara de programas sociais do desenvolvimento.
Fora este exemplo, o sistema público não tem meios concretos de controle.

3) Estratégia Regional

a) Políticas Regionais- Um país sem um caminho claro do “O que queremos?” não se chega a lugar nenhum.
O Brasil precisa definir o seu caminho, ou estratégia nacional, de modo que, os estados e municípios acompanhem essa meta ou caminho, e se crie condições de aplicar em suas regiões e utilizar os recursos federais para isso.
Sem essa estrategia, o governo não repassa os recursos para os estados e municípios pois os 3 diferem os objetivos.
Não necessariamente as regiões com vocações ou limitações tenham que aplicar 100%, mas o país tem um caminho a seguir.
a) Políticas de Compensação- A partir do momento que se tem uma espinha dorsal definida, pode-se aplicar, uma política de compensação entre as regiões.

4) Produtivismo
O Brasil tem uma péssima produtividade empresarial pois não se tem o foco na microempresa e ecossistema para o tal desenvolvimento. A inovação passa pelas startups. Torna-se necessário:
a) Imperativo, Realismo Fiscal- Ter o controle da máquina do Estado para que não se onere as atividades empresarias com novos impostos e taxas tirando a competitividade.
b) Imperativo, Orçamento Público- O orçamento é dividido em 90% e 10%.
90% – O governo escolhe 20 empresas para ser investida e não setores. Por exemplo, um frigorífico famoso. Por meio do BNDES e outros bancos públicos, fazem investimentos a juros menores que o mercado. Esse dinheiro dos bancos públicos que são o dinheiro do (FAT) dos trabalhadores, são aplicados em um pequeno grupo de empresas que mais conseguem fazer lobby com o governo.
10% – O governo aplica em programas sociais.
Resumo: “O governo escolhe os ganhadores e os perdedores escolhem o governo.”

Estrutura da Pirâmide da Sociedade:
Ricos
Classe Média
Miseráveis

Os ricos vivem dos juros do Tesouro Nacional (ganhos financeiros), acumulando sem produção de mercado. É preciso estadismo para mudar esta estrutura baseada no Imperativo do orçamento público.
c) Imperativo, Variação Cambial- O câmbio é flutuante e deve se flutuar. O Brasil fixa.
b) Imperativo, Mercantilismo- Acabar com o pensamento que a importação faz mal para o país e destrói as empresas nacionais. Está provado que os países mais desenvolvidos tem pouca variação entre a exportação e importação. A importação faz com que o país se modernize e acesse as tecnologias de ponta.

5) Economia Agnóstica – O Empreendedorismo de Vanguarda

Hoje o governo federal escolhe os setores que ele quer investir e facilita o crédito para tais.
Como podemos escolher os setores se não sabemos o que se pode emergir no futuro? É preciso de agnosticismo e deixar que os setores se experimentem, errem e inovem.
A partir disso, se forme ecossistemas regionais de inovação. A inovação é um fenômeno social, não ocorre em todo o país, mas em clusters, pois está, atrelado a pessoas.
O empreendedorismo de vanguarda já está acontecendo por todo país pelos pequenos empresários e a classe batalhadora, feito por homens e mulheres mestiços. Tal fenômeno social disruptivo, acontece sem apoio e esforço nenhum do Estado.

a) Organizar o Capital Empreendedor Privado- Não temos políticas para venture capital, ou seja, hoje o investidor é enquadrado como gestor do recurso e responde civilmente e patrimonialmente pelo desempenho dos investimentos. Nossas start-ups perdem com isso, pois dificilmente acessarão funding para realizar os projetos.
b) Hoje tem que se especificar a solução- A burocracia exige que se especifique as soluções criadas sendo que, como se pode especificar uma solução que não é capaz de ser testada e observada no mercado?

Precisamos de um novo modelo de economia de mercado.
Não o modelo norte-americano do liberalismo tampouco o do norte asiático do governo como decisor e regulador do mercado.
É preciso se criar uma terceira via baseada em 2 eixos:
Eixo Vertical: Participativo Estado-Empresa – Vanguardismo (O que o Estado precisa fazer para acontecer o desenvolvimento empresarial)
Eixo Horizontal: Concorrência cooperativa

c) Construir Mecanismos Institucionais- É preciso identificar o que atrapalha, destruir e criar os meios que permitam o empreendedorismo de vanguarda.
Isso extende-se para um crédito agnóstico que subsidie qualquer iniciativa empreendedora sem estar dentro do que o governo imagine ser os setores promissores.

Apesar, o Brasil tem 4 áreas oportunas e competitivas capazes de impulsionar uma nova economia:
a) Biociências e Agricultura
b) Saúde
c) Defesa (As tecnologias da defesa impulsionam todas as outras áreas)
d) Ações regionais

Método

A primeira coisa a saber é assumir que os partidos não são capazes de apresentar e resolver isso. Não existe poder intelectual e vontade para tanto.
Tampouco as instituições que estão comprometidas com seus lobbys e agendas pessoais para isso.
Aquele cidadão que acredita no país é que vai ter que botar este ideário em prática.
É complexo resolver, mas tem caminhos e soluções.
Este é um caminho, um ideário que podemos seguir adiante.

Para saber mais sobre o estudo Produtivismo includente: empreendedorismo vanguardista, acesse: www.sae.gov.br/imprensa/noticia/agenda-pos-ajuste-fiscal-para-fortalecer-o-empreendedor

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